• Crise na embaixada

    March 9, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ⛅ 26 °C

    Sabíamos que não ia ser um dia fácil, mas há sempre forma de piorar.

    Acordámos cedo. Tomámos o pequeno-almoço na ilha, a ver o nascer do sol entre a vegetação. Apanhámos a lancha às 8h e, antes das 10h, já estávamos em Bissau. O Benji até se portou bem, apesar da seca da viagem.

    Fomos diretos para a embaixada, já que só levávamos duas mochilas. Esperámos cerca de uma hora pela doutora, num sítio onde não se pode fazer muito barulho mesmo quando se tem uma criança de 2 anos.

    Quando finalmente Sua Excelência chegou, informou-nos de que precisávamos de uma autorização do pai biológico para poder viajar. Já sabia disso desde o dia anterior, mas... esqueceu-se de avisar.

    Caiu-nos tudo. Se temos poderes totais sobre a criança, como é que podíamos precisar da autorização do pai biológico, que já não tem qualquer poder de decisão?

    Pensámos que o Mussa teria essa autorização, por isso seguimos a pé para o ministério, onde supostamente estaria o documento. Já no gabinete do senhor Júlio, com o Benji a fazer birras porque queria abrir armários, puxar fios dos computadores e mexer em tudo, chegámos à conclusão de que afinal essa autorização não existia. Segundo eles, nunca foi necessária. Podiam, isso sim, enviar um e-mail à embaixada a explicar que esse tipo de autorização já não era emitido porque não fazia sentido, uma vez que já tínhamos todos os poderes legais. Se realmente fosse necessária, teríamos de localizar o pai biológico, que vivia fora de Bissau, e ninguém sabia quanto tempo isso demoraria.

    Voltámos para a embaixada.

    Mais uma hora de espera. Pelo meio, fomos enchendo o Benji de bolachas Maria. De repente, a fralda estava tão cheia que já havia xixi no chão. Disseram-nos que não havia casa de banho disponível na embaixada, mas também não o podíamos deixar assim. Como já estamos habituados a mudar fraldas em pé, foi só mais uma.

    O Benji estava aos berros. Estava cansado, farto, cheio de bolachas e de esperar. Nem depois da fralda mudada havia forma de o acalmar.

    Foi então que nos disseram que Sua Excelência tinha voltado.

    Subi à receção para falar com ela. A primeira coisa que perguntou foi porque é que ele estava a chorar, se era "tão calminho".

    — Está com sono e cansado de estar aqui há tantas horas — respondi.

    — Não, não pode ser isso.

    Saiu porta fora, tirou o Benji dos braços do Valentim e levou-o ao colo. Como acontece muitas vezes, ao colo de um estranho ele acalmou logo e ficou mais quieto. Ela ficou toda contente.

    — Vem para a avó.

    Entrámos então por outra porta da embaixada e começou uma espécie de apresentação do Benji aos funcionários. Dizia que ele já estava mais gordinho graças à Cerelac que ela nos tinha recomendado — que, obviamente, nunca lhe demos. Queria dar-lhe bolo e, quando ele se cansou do colo dela, passou para outra senhora que tinha um iogurte para lhe oferecer.

    No meio de toda esta cena, finalmente conseguimos explicar que a autorização do pai biológico não era necessária. Depois de várias conversas, fez um telefonema e confirmou que, afinal, não era preciso. Bastava um e-mail do ministério a confirmar isso.

    Entretanto começou aos beijinhos ao Benjamim e, de repente, disse:

    — Acho que ele está com febre.

    Foi aí que me desmanchei.

    Também gostávamos de o poder levar ao médico. Gostávamos de estar em casa, onde temos outras condições. Estava tudo a ser demasiado difícil. Vieram-me as lágrimas e tive de sair para me recompor.

    — Mas difícil porquê? — perguntou.

    Porque não temos uma casa. Não temos uma cozinha. Porque a comida dos restaurantes é demasiado salgada para ele.

    — Mas em Portugal também vai ser difícil.

    Respirei fundo. Por dentro só sentia raiva. Em Portugal também será difícil, claro. Mas teremos uma casa com condições e uma rede de apoio. Não tem comparação.

    Entretanto dizia que tinha mesmo de ir porque tinha muita gente para atender... mas continuava ali, a fazer perguntas sem importância e até a querer saber quanto tínhamos pago pelo processo de adoção.

    Mesmo assim, ainda temos esperança de que amanhã o visto esteja pronto. Apesar de, neste momento, a probabilidade parecer muito baixa.
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