• Be Kyan
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Guiné Bissau

A 16-day adventure by Be Read more
  • Trip start
    February 23, 2023

    Lar Betel

    February 23, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 25 °C

    Hoje é, sem dúvida, o primeiro dia de uma grande aventura. Uma viagem diferente para ir buscar o nosso pequeno Benji, que passou os primeiros 2 anos e meio num orfanato. Mas a emoção não começou apenas hoje, já foram vários meses de emoção e stress para conseguir viajar hoje e mesmo assim nem tudo esta em ordem. O Valentim não tem a vacina da febre Amarela que é obrigatório para viajar para a Guiné Bissau, o passaporte do Benjamim tem um erro no nome (Benjamin em vez de Benjamim) e não conseguimos o agendamento na embaixada portuguesa em Bissau para pedir o visto.

    Mas vamos na mesma. Dormi apenas duas horas com tanta agitação. No uber às 6h da manha, o motorista arranca mas pergunta: não se esqueceram de nada? Olhei à minha volta e disse: "acho que não".
    "Não acabei de meter um carrinho de bebé na bagageira? Não se esqueceram do bebé? " 🤣🤣🤣🤣 perguntou.

    Na segurança do aeroporto tivemos que abrir o carrinho de bebé, estávamos os dois a tentar abri-lo com pouco sucesso e com um ar um pouco suspeitos. Entretanto lá consegui abri-lo, mas entalei o dedo mindinho deixando uma marca para a viagem.

    O nosso advogado, Mussa, veio buscar-nos ao aeroporto e fomos directos para o orfanato buscar o Benji. Metade das crianças estavam na escola, a outra metade estava a dormir.
    O Benjamim estava na sua cama a descansar mas de olhos abertos. Pareceu tudo muito normal, tirei-o da cama, agarrou-se a mim e não quis largar mais. A despedida de quem cuidou dele durante esse tempo todo foi com uma lágrima no olho. Mas para ele foi como se já soubesse que vínhamos busca-lo.

    Tínhamos trazido muitas coisas para deixar no orfanato, fraldas, medicamentos, brinquedos, etc...o Benji escolheu um peluche em forma de pimento amarelo aka pimentão.

    Ele vinha nos meus braços com um ar desconfiado mas sem chorar, com a cara fechada, mas não me quis largar mais.
    Jantamos no hotel Dunia onde estávamos hospedados.
    A primeira birra foi quando lhe tentei lavar os dentes, gritou como se lhe estivessem a fazer mal e desisti. O Valentim vai tentar conquista-lo a comer a pasta de dentes.

    Fizemos uma caminha no chão porque o hotel não tinha camas de criança, contei a história do capuchinho vermelho aldrabada ao Benji e antes de acabar a história já ele estava a dormir.
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  • Passaporte

    February 24, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ☀️ 36 °C

    Hoje tínhamos que estar prontos ás 10h para ir fazer o passaporte do Benjamim. Mas o Mussa so apareceu 2h mais tarde de taxi porque o carro com que ele andava tinha vidros fumados e foi apreendido.

    Supostamente já estava tudo organizado e pago era só aparecer com o Benjamim para a correção do passaporte.
    Mas quando chegámos lá não me senti muito confortável. No meio do caos, estavam dezenas de pessoas a tentar entrar e nós, passámos à frente no meio de toda gente com 35 graus, a suar com o Benjamim ao colo, que não me queria largar.

    Lá dentro, não quiseram facilitar a troca do nome, afinal era preciso o original da cédula de nascimento, tivemos que sair novamente e ficámos à espera do Mussa que só tinha que ir buscar o original ao escritório.

    Só voltou passado de duas horas, já não tínhamos água, nem comida, nem dinheiro trocado. O Valentim também não queria sair sozinho com medo que não o deixassem entrar novamente porque estava de calções e eles não gostam.

    Ainda arranjei uma amiga, a Cristina que me levou de mão dada para uma casa de banho privada e a seguir foi me mostrar o seu gabinete.

    Quando o Mussa voltou, percebi que não tinha encontrado a cédula e tinha ido ao ministério solicitar uma segunda via. Voltamos novamente para fazer o passaporte, mas afinal queria uma nova foto do Benji a cores e com fundo azul 😭
    No meio do calor, com fome e com cedo fomos tirar uma foto. Claro que o Benji não me queria largar, a foto foi tirada com ele banhado em lágrimas.
    A impressão da foto demorou uma eternidade a sair. Tive que assumir o papel de mãe, pedir dinheiro ao advogado e sair à procura de alguma coisa para alimentar a cria. No meio de tudo o melhor que encontrei foi mandioca cozido embrulhado num plastico e água num saco de plástico.

    Desta vez, conseguimos fazer o passaporte e seguimos para a embaixada. Não nos queriam deixar entrar na embaixada, depois de várias voltas e conversas lá entrámos. Mas tivemos que espera algum tempo até conseguirmos a atenção que precisávamos e a possibilidade ou garantia de que na segunda-feira, poderíamos dar entrada do visto do Benjamim. Depois de tudo foi um dia de sucesso. Chegámos foi tarde a casa, o Benji estava ko, dormiu 3h, jantou e voltou a dormir.
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  • Restaurante Gã Mela

    February 25, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ☀️ 36 °C

    Quando o Benji acorda, bebe leite num copo de vinho, é o único copo que temos no quarto e ele acorda com tanta fome ou pelo menos com tanta ansiedade para comer que não conseguimos esperar até chegar ao pequeno almoço.
    Esta manhã ficamos só a passear pelo jardim do hotel.
    Á hora de almoço com 35 graus na rua e sem chapéus apanhámos um taxi para o restaurante Gã Mela, para apanhar o táxi temos que fazer um pequeno percurso de uma rua de terra batida com uma água de esgoto a passar pelo meio e uma cabra a tentar encontrar umas ervas perdias. O táxi é partilhado e custa 45centimos por pessoa a primeira coisa barata desde que chegámos.

    Tínhamos recebido um recado de que, teríamos que estar ás 17h no orfanato, não foi bem um convite. Depois da sesta do Benji fomos com o Mussa para o orfanato, a meio do caminho parámos a beira da estada para comprar um telemóvel (era uma prenda que o Mussa estava a comprar) e um cartão SIM para o Valentim.

    Chegados ao orfanato, o pai biológico e a tia do Benjamim estavam a nossa espera. Afinal o telefone era para o pai biológico.
    Ele queira saber se o Benjamim estava feliz e se nós éramos católicos.
    Falei um pouco de religião com ele. Tivemos também com a Francisca dona do orfanato, queríamos deixar duas garrafas de vinho para o ministro que nos tinha ajudado no processo, mas a Francisca ficou logo com uma das garrafas para ela como que retida na alfandega. Nem sei se a outra vai chegar a bom porto.

    Estivemos a confirmar todos os papeis com o advogado para a segunda feira que deverá ser mais um dia em cheio.
    Antes do jantar tentei dar banho ao Benji mas ele teve medo do duche. Fez um drama enorme e acabei por lhe dar banho no meio da casa de banho, eu sentada no chão e ele ao meu colo. Estava toda vestida porque nem consegui que ele me largasse para me despir, pelo menos saiu lavado.
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  • Domingo em família

    February 26, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ☀️ 36 °C

    Hoje já não foi tão fácil, birras para comer, birras porque quer puxar-me o cabelo e não deixo, choro porque caiu da cama, outro porque caiu da cadeira ao pequeno almoço.

    Depois de uma manhã de brincadeira, fomos almoçar ao restaurante Papa louca.
    O Benji fez chichi, mas saiu completamente da fralda quando estava sentado em cima de mim, começou a escorrer pelas minhas pernas abaixo. Depois abençoou-nos com uma agradável diarreia no restaurante que tive que limpar no lavatório porque não tinha toalhitas. Ainda tive que limpar o vestido que estava cheio de chichi. A minha sorte é que já estou a ficar perita em mudar a fralda de pé.

    A caminho do hotel, fizemos uma volta um pouco maior porque o táxi enganou-se no caminho. Um rebenho de vacas magras, um porquinho minúsculo, as mulheres e crianças a lavar a roupa nos baldes à porta da casa, as estradas de terra batida no meio da pobreza extrema e nós no nosso táxi com o Benjamim ao colo depois de uma refeição que custou quase 40 euros.
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  • Mais um passaporte

    February 27, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ⛅ 38 °C

    Sabíamos que ia ser um dia difícil para conseguir pedir o visto do Benjamim, mas ainda tínhamos alguma esperança.

    Tínhamos combinado com o Mussa estar prontos às 9h, mas às 8h já ele estava a bater à nossa porta. Precisava de um documento que tínhamos connosco e que devia ser assinado no ministério pelo pai biológico do Benji.

    Às 9h era suposto irmos buscar o passaporte, mas, em vez disso, acabámos por ir ao centro tirar fotocópias de todos os documentos.

    Parámos numa pastelaria à espera do Mussa, que nem sequer café tinha. O plano parecia simples: o Mussa ia buscar o passaporte e tratar da assinatura do documento com o pai biológico, enquanto nós íamos tirar as fotografias com fundo branco necessárias para o visto.

    Mas nada correu como previsto. No meio da confusão, a mochila ficou no carro e o motorista foi-se embora. O Benjamim tinha fome e precisava de mudar a fralda, mas não tínhamos nada connosco. Não havia muito a fazer. Acabámos por comprar bananas a uma senhora que passou por ali para lhe enganar a fome enquanto esperávamos.

    Quando finalmente o Mussa voltou, veio a má notícia: não tinham conseguido emitir o passaporte porque a cabeça do Benjamim estava ligeiramente inclinada na fotografia que tínhamos tirado na sexta-feira. A foto foi rejeitada e, sem passaporte, não havia visto para ninguém. 😭

    Seguiram-se horas de voltas pela cidade, trocas de fraldas no carro, um almoço apressado — na verdade, o Benji praticamente só comeu bananas e bolachas durante o dia. Tivemos de tirar novas fotografias, desta vez com fundo azul, e reiniciar todo o processo do passaporte, sempre com o Benji de um lado para o outro e debaixo de um calor insuportável.

    Às 4 da tarde regressámos ao hotel exatamente como tínhamos saído: sem passaporte, sem o pedido de visto feito e com a sensação de termos perdido um dia inteiro no meio do caos, sempre com uma criança cansada ao colo.
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  • Reserva de voo fictício

    February 28, 2023 in Guinea-Bissau

    Hoje foi um dia difícil para o nosso pequeno Benji.

    Está naquela fase em que quer fazer tudo sozinho, mas ainda não consegue. O problema é que também não quer que ninguém o ajude e, quando tentamos, desata a chorar. Resultado: tivemos direito a algumas boas birras ao longo do dia.

    Também não estamos a conseguir respeitar a sesta, o que certamente não ajuda. Durante a noite acordou várias vezes sobressaltado e a chorar. E está cada vez mais agarrado a nós. Tudo o que quer é mimo.

    Nem consigo jogar à apanhada com ele. O castigo quando o apanho é uma chuva de beijos, por isso ele faz tudo para ser apanhado. Às vezes nem sai do lugar e fica a olhar para mim com um ar de quem diz: "Pronto, já me apanhaste outra vez."

    Também descobrimos que tem medo da relva, provavelmente porque nunca tinha visto nenhuma. Nem com um pano por cima se senta nela.

    Por outro lado, está completamente fascinado por carros. Pode passar horas num parque de estacionamento a ver carros a chegar e a sair. Quer aproximar-se de todos, observá-los de perto e tocar em tudo o que consegue alcançar.

    No meio de tudo isto, hoje finalmente conseguimos o passaporte. Fomos também tratar da autorização de embarque no ministério e fazer a reserva do voo para Lisboa.

    Esta reserva é obrigatória para o pedido do visto, mas é completamente fictícia. Existem duas agências de viagens mesmo ao lado do local onde se faz o pedido. Por 1,5 euros, vendem uma "reserva" de um voo para Lisboa, com todos os dados de uma suposta viagem confirmada. As duas agências são geridas por indianos e vivem praticamente deste serviço.

    Depois de resolvermos tudo isso, chegámos à agência dos vistos às 14h. Infelizmente, fecha às 13h. Tivemos de voltar para trás.

    Mais um dia...

    Hoje começaram também as aulas da minha pós-graduação. A partir das 18h, tentei pelo menos ficar a ouvir, embora o Benji queira naturalmente toda a atenção para ele. Mas logo na primeira aula o professor avisou que, além das aulas, vamos precisar dedicar pelo menos 10 horas por semana à disciplina para conseguir acompanhar.

    Isto promete.
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  • Pedido de visto

    March 1, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 24 °C

    Às 8h30 já estávamos a sair do hotel para tirar uma fotocópia do passaporte do Benji e seguir para a agência que emite os vistos. Tínhamos um papel da embaixada, escrito à mão, para nos deixarem entrar.

    O segurança agarrou no papel, foi lá dentro e voltou a dizer que não era possível. Ao mesmo tempo, o Mussa estava a receber uma chamada a perguntar quando é que íamos dar entrada do visto. Pois é... o segurança nem chegou a perguntar a ninguém e, se não fosse essa chamada milagrosa, não teríamos entrado. Felizmente tínhamos dado o número do Mussa na embaixada e, pelos vistos, foi bem encaminhado. Tanta sorte, nem sei como.

    Na sala onde entrámos dizia "Serviço Premium". Uma sala de espera com cadeirões de pele e madeira. Mas, na realidade, para além de nós não estava lá mais ninguém. Três meses a tentar agendar um serviço sem sucesso, só conseguimos com uma cunha... e afinal nem tem ninguém. É bem triste.

    Em 15 minutos estávamos despachados. Agora é rezar para que o visto seja emitido o mais rápido possível.

    Fizemos umas comprinhas e fomos enganados com um saco de caju que custou mais de 8 euros na rua. Almoçámos novamente no Gã Mela. Tentei mudar de prato, mas já não havia, por isso voltei à famosa espetada de peixe.

    Aproveitei a sesta do Benjamim para estudar e a noite para ter aulas.
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  • Porto Bissau

    March 2, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 25 °C

    Já está a ficar difícil inventar coisas para fazer nesta cidade quente que nem um forno.

    Já chamamos "piupiu" aos morcegos e aos abutres e fazemos passeios no parque de estacionamento para ver os carros. Tentámos ver o mar, mas está completamente tapado pelo porto. Ainda demos alguns passeios pela cidade, apesar do calor. Mudámos fraldas na rua e de pé, porque as casas de banho não têm condições.

    Apanhámos táxis partilhados para andar de um lado para o outro. Custam 45 cêntimos por pessoa e devem ser a única coisa em conta nesta cidade para turistas como nós.
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  • Cerelac e batatas fritas

    March 3, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 26 °C

    O Benjamim já está demasiado à vontade. Agora começou a querer fazer tudo sozinho, a esticar a corda e a fazer o que quer. O pior continua a ser a comida. Como tivemos uns dias mais difíceis e acabámos por recorrer a papas de fruta e bolachas, agora também já não quer comida salgada. Carne ou peixe é praticamente impossível conseguir que coma. Já decidimos que não há pão antes das refeições, mas também vamos ter de cortar nos sumos, que não estão a ajudar.

    Optámos por fazer a sesta bem cedo para ir almoçar a seguir, com menos birras. Mas, quando acordou, tínhamos de ir à embaixada ver dos vistos, que supostamente deviam estar prontos hoje para podermos viajar amanhã. Só para sair de casa foi uma gritaria que parecia que o mundo ia acabar. Tudo porque o menino agora só quer colo.

    Conseguimos entrar na embaixada sob o olhar desconfiado dos guardas, que nunca nos querem deixar entrar. A responsável com quem já tínhamos falado na semana anterior foi ver se o processo já tinha dado entrada. Mas, segundo ela, nem sequer tinha chegado à embaixada.

    Portanto, o pedido urgente que deu entrada na agência VFS na quarta-feira — o único sítio onde é possível tratar do visto — ainda não tinha chegado à embaixada, que fica a apenas 1 km. Na VFS também dizem que não têm o processo. Com o fim de semana pelo meio, se calhar já só para quinta-feira... mais uma semana? Por momentos, tive vontade de chorar.

    O pior é que a senhora parecia mais preocupada em fazer um diagnóstico cognitivo, auditivo e da fala ao Benji do que em tratar do visto. Tentou perceber porque é que ele não falava e até pediu a um senhor para lhe falar em crioulo, para ver se respondia. Ora, ele ainda não fala, como já lhe tinha explicado, mas isso não chegou. Continuou a testá-lo com várias perguntas para ver se reagia. Ainda nos deu uma dieta para ele engordar, porque está magrinho: principalmente papa Cerelac e batatas fritas.

    Tive de manter a postura, sorrir e, mesmo assim, tentar apelar ao lado humano dela. Se ela não fosse minimamente recetiva connosco, bem podíamos esquecer o visto. Mas as lágrimas guardei-as para quando já estávamos cá fora. Só queria sair desta cidade, que não tem nada. Nem um parque onde passear.

    Fomos almoçar ao Sweet Cultumie's e arrisquei a primeira salada desde que chegámos. Pelo meio, mais uma birra do Benji, porque queria comer todos os croutons. Depois fizemos uma pequena caminhada debaixo do sol até à esplanada do La Rosa e terminámos o dia no Papa Louca a comer uma grande pizza. E, claro... mais uma birra.
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  • Chinelo no pé

    March 4, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 25 °C

    Foi só mais um dia de espera. Fizemos exatamente o mesmo percurso de ontem. A única diferença é que o pequeno Benji se portou muito melhor.

    Já anda de chinelos de um lado para o outro. Só faltam mesmo os calções, que insiste em tirar no meio da rua.Read more

  • Jogo de futebol

    March 5, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ 🌙 24 °C

    Cada dia é uma pequena vitória. Hoje o Benji, para além dos sapatos, já voltou a andar de calções e já gosta de andar a pé. Aos poucos também vamos conseguindo lavar-lhe os dentes, mas continua a ser um desafio. Quando lhe perguntamos quantos anos tem, já sabe mostrar dois dedos. Começa a perceber cada vez melhor o português e nós também vamos começando a perceber o que ele tenta dizer.

    Depois da sesta fizemos uma caminhada bem bonita, de quase um quilómetro, e almoçámos novamente no Papa Louca. O Benji já está tão apegado a nós que começa aos berros quando vamos à casa de banho, o que nem sempre é fácil de gerir.

    Como já não havia muito para fazer, fomos ver um jogo de futebol. O bilhete de entrada custava 90 cêntimos por pessoa e as crianças não pagavam. Claro que só vimos cerca de 30 minutos. O Benji decidiu começar a descer as escadas sozinho para nos mostrar que queria ir embora... e nós fizemos-lhe a vontade.
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  • Em trânsito

    March 6, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ☁️ 25 °C

    Às 10h da manhã estávamos na agência VFS para perceber se o visto já tinha sido enviado para a embaixada. Segundo eles, não estava lá nada. Fomos então, mais uma vez, à embaixada, sempre com alguma dificuldade para conseguir entrar. Já lá dentro, e depois de algum tempo de espera, disseram-nos que ainda não tinham o processo e que voltássemos à tarde.

    À tarde regressámos novamente. Fomos informados de que, infelizmente, o visto ainda estava a caminho. Ora, a distância entre a agência VFS e a embaixada é de menos de 800 metros. Como é que um passaporte pode estar em trânsito há quase seis dias? Mas temos de manter o sorriso e a simpatia, quando o sentimento é de raiva e impotência. Disseram-nos: "Voltem na quinta-feira, pode ser que haja alguma novidade." A minha vontade era desatar a chorar perante tanto desprezo e este jogo de poder. Realmente, quem nunca teve poder e de repente o tem para mandar, sobe-lhe o sangue à cabeça e transforma-se num ser intolerável.

    Almoçámos no Gã Mela, depois de uma longa caminhada, e jantámos na Dona Fernanda depois de outra. Com sorte, passámos pela Praça Imperial mesmo à hora de descer a bandeira da Guiné. Toca um trompete e toda a gente, até os carros, para durante a cerimónia.

    Durante uma das caminhadas, o Benji tirou um dos sapatos e não o queria voltar a calçar. Uma senhora que passava por ali arrancou um raminho de uma árvore e ameaçou-o, em tom de brincadeira, que lhe batia com o raminho se ele não calçasse o sapato.
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  • Bubaque

    March 7, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ☁️ 26 °C

    Não devíamos. O dinheiro está curto e esta estadia prolongada está a dar cabo do orçamento. Mas a verdade é que já não aguentávamos ficar presos no hotel em Bissau. Decidimos passar dois dias numa ilha, em Bubaque. Uma pequena fortuna... mas vamos tentar não pensar nisso.

    O transfer veio buscar-nos ao hotel, mas ainda tínhamos de levantar dinheiro. Que filme. Quase todos os multibancos do centro de Bissau estavam em manutenção. A cada banco, o Valentim saía para tentar a sorte e eu ia atrás com o Benjamim ao colo, aos gritos e a espernear, porque não consegue estar longe nem de mim nem do Valentim.

    Finalmente conseguimos levantar dinheiro, com o Benjamim aos berros como se o mundo fosse acabar, e seguimos para o porto. Mais uma birra do fim do mundo, porque queria ficar ao meu colo, mas exigia que eu estivesse de pé. Claro que, depois de tanto tempo com ele ao colo e a espernear, os meus braços já não aguentavam. Tivemos de o deixar chorar, apesar dos muitos olhares reprovadores, que nesta altura já pouco me interessavam.

    A viagem de barco durou quase duas horas, com o pequeno Benji a portar-se mais ou menos bem. Mas a paz durou pouco. Assim que chegámos à ilha foi uma birra atrás da outra. Ou porque me afastei dois metros, ou porque não lhe deram colo, ou porque a erva picava... ou simplesmente porque sim.

    Chegámos a um sítio paradisíaco, o lodge Le Dauphin, mas confesso que, no meio de tantas birras, até me custava apreciar o que nos rodeava. O Benji viu o mar pela primeira vez, os barcos e a piscina, mas não pareceu ficar muito impressionado. Na piscina teve de estar agarrado a mim quase o tempo todo, com as unhas cravadas nas minhas costas, porque ainda não tivemos coragem de lhas cortar.

    No meio disto tudo, ainda apanhei um escaldão no barco.
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  • Praia da Anchaca

    March 8, 2023 in Guinea-Bissau

    Este foi, sem dúvida, o melhor dia desta viagem. Nestas ilhas paradisíacas, com muito pouca gente e uma comida incrível, conseguimos finalmente abrandar.

    O Benji estava feliz e deu os primeiros passos no mar. Ainda tem medo da areia, mas há de se habituar.

    Passámos a manhã na Praia da Anchaca, onde também almoçámos, e regressámos ao lodge à hora da sesta.
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  • Crise na embaixada

    March 9, 2023 in Guinea-Bissau ⋅ ⛅ 26 °C

    Sabíamos que não ia ser um dia fácil, mas há sempre forma de piorar.

    Acordámos cedo. Tomámos o pequeno-almoço na ilha, a ver o nascer do sol entre a vegetação. Apanhámos a lancha às 8h e, antes das 10h, já estávamos em Bissau. O Benji até se portou bem, apesar da seca da viagem.

    Fomos diretos para a embaixada, já que só levávamos duas mochilas. Esperámos cerca de uma hora pela doutora, num sítio onde não se pode fazer muito barulho mesmo quando se tem uma criança de 2 anos.

    Quando finalmente Sua Excelência chegou, informou-nos de que precisávamos de uma autorização do pai biológico para poder viajar. Já sabia disso desde o dia anterior, mas... esqueceu-se de avisar.

    Caiu-nos tudo. Se temos poderes totais sobre a criança, como é que podíamos precisar da autorização do pai biológico, que já não tem qualquer poder de decisão?

    Pensámos que o Mussa teria essa autorização, por isso seguimos a pé para o ministério, onde supostamente estaria o documento. Já no gabinete do senhor Júlio, com o Benji a fazer birras porque queria abrir armários, puxar fios dos computadores e mexer em tudo, chegámos à conclusão de que afinal essa autorização não existia. Segundo eles, nunca foi necessária. Podiam, isso sim, enviar um e-mail à embaixada a explicar que esse tipo de autorização já não era emitido porque não fazia sentido, uma vez que já tínhamos todos os poderes legais. Se realmente fosse necessária, teríamos de localizar o pai biológico, que vivia fora de Bissau, e ninguém sabia quanto tempo isso demoraria.

    Voltámos para a embaixada.

    Mais uma hora de espera. Pelo meio, fomos enchendo o Benji de bolachas Maria. De repente, a fralda estava tão cheia que já havia xixi no chão. Disseram-nos que não havia casa de banho disponível na embaixada, mas também não o podíamos deixar assim. Como já estamos habituados a mudar fraldas em pé, foi só mais uma.

    O Benji estava aos berros. Estava cansado, farto, cheio de bolachas e de esperar. Nem depois da fralda mudada havia forma de o acalmar.

    Foi então que nos disseram que Sua Excelência tinha voltado.

    Subi à receção para falar com ela. A primeira coisa que perguntou foi porque é que ele estava a chorar, se era "tão calminho".

    — Está com sono e cansado de estar aqui há tantas horas — respondi.

    — Não, não pode ser isso.

    Saiu porta fora, tirou o Benji dos braços do Valentim e levou-o ao colo. Como acontece muitas vezes, ao colo de um estranho ele acalmou logo e ficou mais quieto. Ela ficou toda contente.

    — Vem para a avó.

    Entrámos então por outra porta da embaixada e começou uma espécie de apresentação do Benji aos funcionários. Dizia que ele já estava mais gordinho graças à Cerelac que ela nos tinha recomendado — que, obviamente, nunca lhe demos. Queria dar-lhe bolo e, quando ele se cansou do colo dela, passou para outra senhora que tinha um iogurte para lhe oferecer.

    No meio de toda esta cena, finalmente conseguimos explicar que a autorização do pai biológico não era necessária. Depois de várias conversas, fez um telefonema e confirmou que, afinal, não era preciso. Bastava um e-mail do ministério a confirmar isso.

    Entretanto começou aos beijinhos ao Benjamim e, de repente, disse:

    — Acho que ele está com febre.

    Foi aí que me desmanchei.

    Também gostávamos de o poder levar ao médico. Gostávamos de estar em casa, onde temos outras condições. Estava tudo a ser demasiado difícil. Vieram-me as lágrimas e tive de sair para me recompor.

    — Mas difícil porquê? — perguntou.

    Porque não temos uma casa. Não temos uma cozinha. Porque a comida dos restaurantes é demasiado salgada para ele.

    — Mas em Portugal também vai ser difícil.

    Respirei fundo. Por dentro só sentia raiva. Em Portugal também será difícil, claro. Mas teremos uma casa com condições e uma rede de apoio. Não tem comparação.

    Entretanto dizia que tinha mesmo de ir porque tinha muita gente para atender... mas continuava ali, a fazer perguntas sem importância e até a querer saber quanto tínhamos pago pelo processo de adoção.

    Mesmo assim, ainda temos esperança de que amanhã o visto esteja pronto. Apesar de, neste momento, a probabilidade parecer muito baixa.
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  • Bem vindo a Lisboa

    March 10, 2023 in Portugal ⋅ ⛅ 18 °C

    Passei grande parte da noite a ver voos e blogues sobre viajar com crianças. O cenário não era nada animador. O melhor voo direto nos sete dias seguintes era naquele dia, às 15h45... mas continuávamos sem visto.

    Logo de manhã voltámos à embaixada. Mais não sei quanto tempo de espera para, no fim, nos dizerem apenas: "Voltem às 16h."

    Tristes, regressámos ao hotel e combinámos almoçar com o Mussa. Quando estávamos a entrar no hotel, recebemos uma mensagem: o visto tinha acabado de ser emitido.

    A emoção foi tanta que me vieram logo as lágrimas aos olhos. Seguiram-se mais correrias debaixo daquele calor, mais uma viagem de táxi para ir buscar o visto. Eram quase meio-dia quando voltámos ao hotel, já com o passaporte na mão.

    Comprámos os voos dentro do táxi. Faltavam apenas quatro horas para a descolagem.

    Fizemos as malas à pressa, demos ao Benji o resto da sopa do dia anterior e seguimos para o aeroporto com o advogado.

    O Benji já estava cansado e sem ter feito a sesta. O aeroporto era minúsculo, mas completamente caótico. Afinal, nem deixaram o Mussa entrar. Fizemos o check-in sem problemas, passámos pela segurança e ainda deu tempo para comer qualquer coisa.

    Na hora do embarque disseram-nos que precisávamos de uma cópia do processo. Sem ela, não podíamos embarcar.

    O Valentim teve de voltar a sair para ir arranjar a cópia e eu fiquei na porta de embarque, a ver as pessoas entrarem uma a uma. O Benji fazia uma birra terrível e o Valentim nunca mais aparecia. Por momentos pensei mesmo que íamos perder o voo.

    Entrámos quase no fim. Ainda tivemos de esperar dentro de um autocarro sem ar condicionado, com um calor insuportável. O Benji sempre ao meu colo. Se o pousava, chorava. Eu já suava como se estivesse numa sauna.

    Ainda houve mais uma inspeção antes de entrar no avião e acabámos por descolar com uma hora de atraso.

    O voo também não foi fácil. O Benji lutava contra o sono, estava muito irrequieto e eu já mal sentia os braços. Fizemos de tudo para evitar que chorasse. Só adormeceu quando faltavam cerca de 30 minutos para aterrar. Infelizmente, acordou sobressaltado na aterragem.

    Passar o controlo do SEF foi mais um filme. O Benji só queria o meu colo, mas os meus braços já não davam mais. Sempre que o pousava, gritava com todas as forças.

    E depois veio a melhor surpresa de todas.

    A Diana, o João, a Teresa, a Raquel e o Seabra estavam à nossa espera no aeroporto, com comida, prendas e até lençóis para a cama do Benji.

    Chegámos finalmente a casa. O Benji adormeceu já passava das 23h.

    Obrigada a todos os amigos e familiares que nos deram força e estiveram ao nosso lado nesta primeira fase do início de uma nova história. ❤️
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    Trip end
    March 10, 2023