• Fabio Madruga
August 2021

Caminho de Santiago

Cicloviagem pelo Caminho de Santiago – Português Central Read more
  • Trip start
    August 15, 2021

    Porto

    Aug 15–16, 2021 in Portugal ⋅ ☀️ 22 °C

    Antes do início da descrição do percurso, segue uma breve contextualização histórica: O Caminho de Santiago consiste em uma rede de percursos que se convergem na Catedral de Santiago, é uma peregrinação ao suposto túmulo de São Tiago – Tiago Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo. Após a descoberta do suposto túmulo, no início do século 9, o Rei Alfonso II das Asturias realizou a primeira peregrinação pelo que ficou conhecido como Caminho Primitivo e construiu uma capela no local. Essa capela passou por ampliações e reformas ao longo do tempo, até que em 1075, iniciou-se a construção da Catedral de Santiago, o destino de milhares de peregrinos oriundos dos diversos caminhos, localizada no centro histórico da cidade galega e espanhola de Santiago de Compostela.
    O Caminho de Santiago é patrimônio da humanidade (os percursos francês e norte espanhol), há muita informação na internet sobre dicas, sugestões e atrativos dos variados trajetos. Destaco o aplicativo “buen camino”, desenvolvido pelo guia Carlos Mencos, que se mostrou absurdamente preciso e detalhado durante o meu uso. O Caminho Português Central tem início em Lisboa, no entanto o trecho até Porto não é popular, e mal sinalizado, então, Porto tornou-se o local que dei o̶ ̶p̶o̶n̶t̶a̶p̶é̶ ̶i̶n̶i̶c̶i̶a̶l̶ a primeira pedalada – novamente, Saga, minha bike, estava comigo. Parti da Catedral da Sé – imponente igreja, no alto do centro histórico, em estilo românico (original), gótico e barroco.
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  • Barcelos

    Aug 16–17, 2021 in Portugal ⋅ ☀️ 27 °C

    Com a credencial em mão – vai precisar desta, caso pretenda pegar a compostela (o documento comprobatório da peregrinação) em Santiago. Passavam das oito horas quando deixei a catedral para trás, partindo pelo centro histórico, pedalando entre turistas distraídos, vielas que mal cabiam uma carroça, pequenas calçadas (por aqui são esplanadas), ruas de paralelepípedo e no meio de um trânsito f̶o̶d̶i̶d̶o̶ caótico, quase que me passam despercebidos os prédios e as estruturas antigas, resguardando séculos de histórias em suas rachaduras e pinturas c̶a̶f̶o̶n̶a̶s̶ desbotadas. Em pouco mais de uma hora a zona urbana de Porto e de Maia foi superada, assim surgiam os primeiros picos de verde, parei para tirar algumas fotos e observei a primeira placa bem detalhada do dia – a placa da entrada de Vila do Conde. Por essa cidade, o Caminho passa por belas igrejas, destacam-se as igrejas de Gião e Maciera da Maia, pontes medievais, pequenos vilarejos, diversos peregrinos andantes e muitas videiras, mas, muitas videiras, o pessoal aqui realmente aprecia um vinho. No início da tarde, adentrei São Pedro de Rates, freguesia de Póvoa de Varzim, onde almocei no restaurante “O Peregrino”, por apenas quatro euros – o menu peregrino me conquistou! Depois de um breve descanso, pois não t̶i̶n̶h̶a̶ ̶p̶o̶r̶r̶a̶ ̶n̶e̶n̶h̶u̶m̶a̶ havia muito o que fuçar ali, meus pés sobre os pedais e segui até parar em um dos atrativos que havia listado: a Igreja de Santa Leocádia na freguesia de Pedra Furada, já no início da cidade de Barcelos. Existe uma lenda em torno dessa santa, ao qual ela havia sido enterrada viva e reergueu-se, furando uma pedra com a cabeça, originando o nome da freguesia, p̶u̶t̶a̶q̶u̶e̶p̶a̶r̶i̶u̶ religiões e seus folclores. No final da tarde abracei o galo de Barcelos, tão colorido e tão convidativo, que não pude evitar – terminava o primeiro dia de pedalada, tendo percorrido 58,3 km. Arrumei o meu alforge empoeirado no Albergue Cidade de Barcelos, cuidado por Dona Emília e gratuito para peregrinos, e fui explorar o encantador centro histórico de Barcelos e para fechar o dia, assisti de camarote um pôr do sol magnífico, sentado em um banco no alto de uma colina, de onde se deslumbrava a vista da ponte medieval romana sobre o Rio Cávado.Read more

  • Rubiães

    Aug 17–18, 2021 in Portugal ⋅ ☀️ 28 °C

    Uma ótima noite de descanso, cama confortável e a ansiedade para descortinar mais do Caminho me fez despertar na alvorada – sem mencionar a cantoria dos galos, parece que há um galo por habitante nesta cidade. Em ritmo lento, me preparei e parti por detrás do centro, pelos vilarejos Vila Boa e Estrada – com diversas colinas, haja fôlego, o meu dia de pedal começara árduo. Apesar d̶a̶s̶ ̶s̶u̶b̶i̶d̶a̶s̶ ̶e̶ ̶d̶e̶s̶c̶i̶d̶a̶s̶ ̶i̶n̶f̶e̶r̶n̶a̶i̶s̶ dos desníveis, o itinerário foi realizado por ruas e vielas asfaltadas, em sua maior parte, com diversos pontos de apoio (mercadinhos, bares, pensões) e carimbos (para quem busca a compostela) – eu, também, queria preencher a minha credencial com carimbos fofinhos e coloridinhos. Em pouco mais de duas horas, deparei-me com a ponte de Nossa Senhora da Guia, com uma vista dramática à minha frente – a ponte romana medieval, os montes do norte ao fundo e o bucólico Rio Lima, o cenário ideal para a minha próxima parada: a cidade de Ponte de Lima. Com o relógio e o clima a meu favor, explorei bem o centro histórico e a belíssima Igreja de Santo Antônio da Torre Velha, por fim, despojei Saga e, em meio à muitos turistas curiosos, que por ali m̶e̶ ̶j̶u̶l̶g̶a̶v̶a̶m̶ ̶c̶o̶m̶ ̶s̶e̶u̶s̶ ̶o̶l̶h̶a̶r̶e̶s̶ passavam, preparei um delicioso almoço de enlatados e embutidos à beira do rio. No regresso ao caminho, assim que passa pela ponte, na rua de-trás-dos palheiros, há uma pequena oficina de reparos chamada ‘Restauro-à-Sexta’ com sinos e placas do sarcástico e criativo M̶a̶n̶u̶e̶l̶ Martins – um ícone desta parte do Caminho. O caminho segue sem muitas mudanças: vilarejos e zona rural, até a temida, serra da Labruja, ainda em Ponte de Lima – havia lido e escutado sobre esse percurso, porém, com uma p̶e̶s̶s̶o̶a̶ ̶s̶e̶d̶e̶n̶t̶á̶r̶i̶a̶ bike pesada, optei por tomar um desvio pela rodovia e retornar ao Caminho mais à frente, doce engano se pensei que seria mais leve o desvio, g̶r̶i̶t̶e̶i̶ ̶e̶ ̶x̶i̶n̶g̶u̶e̶i̶ sofri e bendisse até o chegar ao topo – acho que só neste trecho paguei o pecado de toda a minha vida. Após 55,2 km pedalados cheguei ao meu objetivo: a freguesia de Rubiães, na cidade de Paredes de Coura, onde me aconcheguei no albergue Casa de São Sebastião, cuidado por Dona Glória. A noite fez muito frio, entretanto, o albergue estava recheado de peregrinos, inclusive, outros cicloviajantes e a conversa fluiu naturalmente, entre conselhos e algumas bolhas em meus calejados pés.Read more

  • Porriño

    Aug 18–19, 2021 in Spain ⋅ ⛅ 30 °C

    A rotina da manhã é a mesma, exceto pelo frio que fazia em Rubiães – pela primeira vez tirei a jaqueta surrada do alforge, para atenuar um pouco, do que mais parecia u̶m̶a̶ ̶c̶e̶n̶a̶ ̶d̶o̶ ̶f̶i̶l̶m̶e̶ ̶“̶E̶r̶a̶ ̶d̶o̶ ̶G̶e̶l̶o̶”̶ manhã de inverno. O percurso até Valença é curto e, em sua maior parte, por ruas asfaltadas, levei um pouco mais de uma hora e tomei meu tempo para percorrer o centro histórico de Valença, que por sinal é cativante. Cruzei a fronteira sobre o Rio Minho, para a província de Galícia, na Espanha e para minha sorte ou porque a b̶i̶c̶h̶i̶n̶h̶a̶ ̶e̶s̶t̶a̶v̶a̶ ̶s̶o̶b̶r̶e̶c̶a̶r̶r̶e̶g̶a̶d̶a̶ ̶c̶o̶m̶ ̶u̶m̶a̶ ̶t̶o̶n̶e̶l̶a̶d̶a̶ era o momento de dar um descanso mesmo, o pneu traseiro de Saga furou – oportunidade ideal para testar o recém adquirido conhecimento de manutenção. Assim que me sentei ao chão e coloquei a caixinha de som para tocar – é sempre bom ter uma trilha sonora adequada à cada ocasião, um cicloviajante de nome João, experiente p̶a̶d̶e̶i̶r̶o̶ viajante e a sua filha Ana, ofereceram-me auxílio – oferta recebida e aceita com diversos sorrisos e pitadas de sarcasmo lusitano e para a minha surpresa, ele só parou para me ajudar porque ouviu a música dos Mamonas Assassinas – não é que o gajo conhecia e era fã? Em território galego, explorei o centro de Tui e as minhas primeiras impressões foram muito positivas: preservação da história, através de edifícios, monumentos e placas descritivas – uma joia do ponto de vista arquitetônico e arqueológico. Afastei-me um pouco do centro, que por sinal me pareceu o início da rota de muitos peregrinos, às margens do Rio Louro e a hora de b̶a̶t̶e̶r̶ ̶u̶m̶ ̶r̶a̶n̶g̶o̶ almoçar havia me encontrado. Enquanto a digestão se efetuava, segui pela zona rural e por pequenas aldeias, onde a vida para literalmente até as três horas da tarde, por causa da p̶r̶e̶g̶u̶i̶ç̶a̶ siesta. Pedalei pela muralha do peregrino e a preservada ponte romana de Orbenlle e assim me deparei com a cidade de O Porriño. Encontrei um albergue bem barato, guardei tudo e fui ver o que a pequena cidade me revelaria, entretanto, parecia que eu havia adentrado em um portal do tempo e retornado à era medieval: construções de palacetes, igrejas seculares, monumentos históricos e lojinhas de confecção de artigos em couro bem típicos da época. De volta ao albergue, cozinhei à moda carioca – pegue tudo que encontrar, jogue na panela, mexa e remexa, acrescente ketchup, o toque do chef, e entupa-se; depois pude dormir tranquilo e menos cansado, pois, apenas havia pedalado 32,5 km.Read more

  • Valga

    Aug 19–20, 2021 in Spain ⋅ ☀️ 25 °C

    Na manhã do quarto dia, a batalha com o galo fora perdida, em minha defesa não havia necessidade de levantar-se tão cedo, pois havia programado parar na cidade de Pontevedra, que distava apenas 33 km. O Caminho até Mos é feito por estradas e ruas, bem tranquilo, ao término da cidade há uma grande serra que em seu cume há um belíssimo mirante, sucedendo uma descida l̶o̶u̶c̶o̶n̶a̶ fantástica, onde atingi quase 60 km por hora – estava sonhando que era um supersônico. O próximo destino foi a pequena cidade de Redondela, que deixei para conhecer na volta – sabe quando nossas mães diziam, na volta a gente compra, então, utilizei da mesma tática. O Caminho segue ora margeando o balneário do Rio Vigo, ora por dentro dos vilarejos, onde há muita oferta de ‘sellos’ (carimbos) para atrair peregrinos e vender algum souvenir, inclusive comprei um par de conchas de vieira, Jack e Rose – não me julgue. Em Soutoxuste, já no final de Redondela, há uma outra serra, o Alto da Cabaleira, cuja vista para o Rio Vigo é impressionante, um dos pontos altos do dia, juntamente com o destino que vem a seguir, Arcade, já na cidade de Sotomayor, cuja paisagem, formada pelo balneário do Rio Vedugo e a ponte medieval de Ponte Sampaio é estonteante – tive que parar para apreciar e tirar algumas fotos. Deslumbrado com as recentes vistas, segui para Pontevedra, ao qual parei para cozinhar e descansar, também decidi por deixar para explorar a cidade quando estivesse retornando à Portugal. Mais adiante passei por Caldas de Reyes e a esta altura já me encontrava bastante esgotado, como queria acampar, busquei refúgio em Valga, em uma área verde, de grama baixa, próximo ao rio homônimo – ainda tomei banho de rio, que foi u̶m̶a̶ ̶m̶a̶n̶e̶i̶r̶a̶ ̶e̶s̶t̶ú̶p̶i̶d̶a̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶f̶i̶c̶a̶r̶ ̶c̶o̶m̶ ̶h̶i̶p̶o̶t̶e̶r̶m̶i̶a̶ peculiar e muito energizante. Após o banho, cozinhei ‘pechuga del pollo (peito de frango grelhado) e conheci um casal de cicloviajantes que também acampava por ali e proseamos sobre o Caminho e cicloviagens. Depois de um dia super cansativo e quente, onde pedalei 67 km, mereci um longo descanso ao som do curso da água do Rio Valga e de bichinhos irritantes e desconhecidos.Read more

  • Santiago de Compostela

    Aug 20–23, 2021 in Spain ⋅ ☀️ 22 °C

    De Valga à Santiago de Compostela seriam necessários pedalar apenas 34 km, ou seja, não havia pressa alguma, mas a minha ansiedade berrava dentro de mim, que despertei cedo, em um clima frio e neblinoso. O pedal teve início, por entre bosques e enormes pedras seculares, nem precisou muito tempo e os primeiros peregrinos caminhantes me avistaram, sempre bem-educados, repetindo a mesma frase em tom de coral ‘Bueno Camiño’. Assim prossegui, por Pontecesures e Padrón – esta última famosa por s̶u̶a̶ ̶t̶e̶q̶u̶i̶l̶a̶,̶ ̶e̶i̶t̶a̶,̶ ̶c̶o̶n̶f̶u̶n̶d̶i̶ ̶c̶o̶m̶ ̶P̶a̶t̶r̶ó̶n̶ suas pimentas. O Caminho deixa o bonito verde dos bosques para trás e começam-se os trechos de estradas e ruas até culminar na Praça do Obradeiro, onde está situada a fascinante Catedral de Santiago – que é patrimônio da humanidade, juntamente com todo o centro histórico da cidade. Enquanto admiro a fascinante catedral um turbilhão de sentimentos e sensações me preenchia, algo surreal e as lágrimas são involuntárias, o coração parece não suportar. A praça tomada por peregrinos e turistas, que buscavam o seu espaço para aquela recordação única, aos sons de inúmeros idiomas, músicas e badaladas do sino. Encontrei um camping, localizado a 10 km do centro histórico, onde decidi ficar por três dias a fim de explorar bem a histórica cidade. Eu cheguei exausto, contudo, orgulhoso por ter conseguido e convicto que essa era apenas uma de diversas cicloviagens que viriam a seguir.Read more

    Trip end
    August 23, 2021